Solo sagrado

Em meio a favelas e a mansão do dono da fábrica de chuveiros, dois oceanos cheios de lixo, senhores enrolados em cobertores mais cinzas e duros que o asfalto, teatros para peças infantis obrigatoriamente medíocres, tênis pendurados pelo cadarço no emaranhado elétrico, vilinhas fantasmas vipes, comedores de cus com bermuda de tactel pálidos de tara bosquímana, senhoras digníssimas comprando iguarias finas na padaria belga, comércio vestido de puro senso utilitário, escravos do celular, animais sufocados num insuportável conforto feito de plástico e algodão, negros racistas de cabelo black power, cobradores de ônibus que não respondem boa tarde, trabalhadores da administração eternamente sentados no computador fazendo cooper para perder a barriga, chusma de pernilongos, ataque de porvinhas, formigas atrás de comida, operários exaustos pensando em pizza calabresa, escritores frustrados sonhando como ser Dalton Trevisan, carros carros carros infinitos carros, torres torres torres incontáveis torres, diabéticos comendo torresmo com a mão mesmo, servidores públicos esgotados de estabilidade improdutiva, pombos podres mas vivos, ratos escondidos até 7 da noite, grávidas prevendo 15 fraldas descartáveis por dia, leitores que nunca passam da 15° página, crianças obesas em triciclos a 15 reais a hora, profanas construções de empresas religiosas feitas de isopor e jardins com coqueiros e coníferas, vidas-lokas e suas malukas na maldade, librianos perdidos de desamor em companhia de aquarianos se orientando para o desapego, grupo de gays acadêmicos competindo lembrar a letra de não existe amor em SP, pequenos abacates despencando das árvores antes da hora para rachar no chão, anarquistas opressores, roqueiros preconceituosos, artistas convencionais, estetas esculachados, caminhoneiros sem rumo, comunistas ricos, pessoas com roupas caras, tênis de marca fazendo o azougue pela faixa de ciclistas,

em meio a tudo isso, e muito muito muito mais, ao pé de uma árvore que há de ser engolida pela avalanche da cultura, famílias bolivianas aproveitam com bastante amor, elegância e refrigerantes um domingo sagrado nos gramados do parque Belém.

Álvaro Dias Cuba

Gerânios silvestres

Como quem tenta abrir buraco na água, luta que só luta acreditar em duas verdades absolutas. A primeira é que gente que não sente inveja, de duas uma, ou se acha a última bolacha do pacote ou compreende demais as coisas. A segunda verdade, é que a fofoca é um tipo adorável de amor brasileiro, pois quem fofoca considera muito mais o outro do que aquela indiferença doentia dos iluminados. E como lhe parece impossível compreender os paradoxos do comportamento humano, cuida de plantas de um jeito compulsivo, mas sempre matutando o cheiro de liquidificador queimado dos gerânios e o quanto as samambaias lembram os frizzados da nova namorada. Agora… Qual a origem e com que propósito cultivar gerânios, se aquela vizinhança demonstra invejinhas diárias, ao invés de simplesmente admirar a beleza do jardim? Que preguiça, viu!

Mas também, que porra de burguesão abestalhado me tornei, pensa ele, cultivando dia e noite avencas, tulipas e rendas portuguesas debaixo desse sol estourando mamona. Que vergonha! Que delícia! Que esteta tonto é esse, sempre buscando a justa medida em plena natureza exuberante. Amanhã mesmo vai cortar os cabelos a la Jimmy Hendrix no Retrô e comprar, no mínimo, oito batas com estampas Hare Krishna e Yemanjá. Por hora, é acabar com esses gerânios incoerentes e sair para comprar plantas adequadas.

De temaki na mão, a crítica internet-crônica em pensamento batendo forte contra o que ele chama de “uma multidão de Zumbis WhatsApp”, caminha decidido até o pet shop center. Enche o carrinho com sementes e mudas de quaresmeiras, bromélias, helicônias e orquídeas, devidamente embaladas em caixinhas transparentes modelo bolsa baú, o merecido conforto do consumidor de fofos cativeiros. Mas é apenas ao observar o mapa sobre a origem das plantas, localizado no corredor das ervas e pequenos arbustos, que Luiz leva as mãos até as bochechas, estapeando-se, arregala os olhos e grita. Ele acaba de descobrir que os gerânios silvestres cultivados durante anos nos jardins de sua bela casa, jaz picotados no saco de lixo da cozinha, também fazem parte da flora tropical.

Álvaro Dias Cuba

Chá de lírio

No velho armário achado na esquina da quebrada, havia apenas um resto de sal, um pacote aberto de fubá, pequenas baratas e alguns dentes de alho com mofo peludo, enquanto irmã e sobrinha assistiam a programas infames de televisão sobre almofadas ridículas catadas no lixo de antigas patroas. Gorda e de bochechas escuras pelo consumo milenar de gordura ruim e de barrigudinha, ela rodava pela casa o ápice de um desespero de fome quando se lembrou da moça da ONG e sua oficina sobre chás feitos de plantas fáceis de encontrar por aí: flores sem vergonha, folhas poluídas de árvores de calçada e todo tipo de ervas danadinhas.

Saiu para a rua para saber o que fazer e, diante de um parque linear organizado por editais ornamentais, suspendeu a barra da saia branca, agachou-se, afundando os pés no brejo, a fim de arrancar as raízes de um dos incontáveis lírios invasores da Mata Atlântica. Abriu com violência e instinto um buraco com as unhas porque sabia não ser civilizada o suficiente para chamar unhas de garras e rosto de fera. Agarrou a planta pelo caule com tanta força de enforcadora, que as cócoras caíram pesado para trás. Colocou-se de pé toda suja de barro, o gengibre nas mãos abertas em fibras e cabelos selvagens.

Chegando em casa, cortou o gengibre em rodelas e cozinhou-as em água filtrada, conforme orientações da oficineira. No sofá, irmã e sobrinha demonstravam fascinação pela história de uma mulher que, após ter sobrevivido a seis tiros do marido, atravessou um vale em busca de socorro e contou com ajuda de estranhos para se salvar. Estavam tão hipnotizadas com a saga da heroína da vida real que perdoou o marido sem registrar queixa na polícia, que nem deram bola para o chá cheiroso por causa da falta de açúcar. Apenas a das bochechas escuras, sentada entre as duas e de frente para um jornalista vestido de terno gravata e mentiras, depois do primeiro gole de chá, desviou o olhar da televisão para a janela, por onde penetrava a fresta quente de um sol ancestral e verdadeiro que a revelou para sempre.

Álvaro Dias Cuba