O cocô de Ícaro

Queria te pedir desculpas, Ícaro. Sou toda arrependimento saboroso, assado, frito ou cozido, até mesmo cru, por ter me deixado capturar e ser espremida com outras galinhas alucinadas feitas pela indústria, não pela divindade perfeita que fez vocês. Minhas ancestrais não aprenderam a voar em direção ao sol. Não, não, isso que não.

Sei muito bem que te insulto o orgulho de si mesmo ao espichar o pescoço para fora da gaiola e demonstrar nenhuma compreensão quanto à sua insistência naquilo de que já desisti, como velha que sou, uma galinha velha de dois meses e bico cortado debaixo de uma luz que não me deixa dormir um instante, desesperada de frente para a razão e sangue frio superiores, a preferência onívora, a riqueza dos movimentos motorizados, seja a sintonia fina ou grossa. Enquanto que a minha situação fica cada dia mais constrangedora. Nem mesmo sei exatamente o que quer dizer a palavra pecuária, pois não tive oportunidades com a cultura humana.

As emoções nunca me foram frescas e jovens, amor. Acumulei-as ração nojenta todo o meu corpo, transformado minutos depois deu sair do ovo neste putrefato estoque de ódio, desespero, incompreensão, esterilidade branca, infelicidade e medo que me mantêm viva e te fazem cada vez mais morto.
Embora haja uma luz forte sobre mim o tempo todo, talvez eu não esteja muito viva, o que pode parecer um paradoxo. Mas confesso que ainda ontem ou segundos atrás vi uma galinha de indústria sendo levada para o abate e não me fez emoção alguma a má sorte da colega. Jubilei o espaço liberado na jaula e por um triz não desejei minha própria morte, se provavelmente só assim vou ser toda para você, assada e empalada, mas rodando na padaria feito um sol perfumado de delícias douradas.

Sei que sou só para parecer apetitosa para você, para seu nariz gulosinho, para percorrer os labirintos dos seus intestinos de magenta, prazerosas asinhas de frango, os ossos chupados todo o tutano, se aqui estou para, futuramente, ser augusta na digestão da mais nobre de todas as tripas animalescas. Quando, por fim, viverei meu momento de anjo ao me converter em queda no glorioso cocô de Ícaro, que um dia hei de boiar no Tietê.

Álvaro Dias Cuba

@Dindinha

Compartilhou, logo comigo, com o joelho todo ralado por causa da queda de patins em Paquetá, um link em que o presidente Vamp dá uma nota de 50 reais para o Silvio Santos: @Dindinha Para que vc tenha uma manhã silviosântica!

O dia não está fácil. Essa chuva eterna estimula a proliferação de mosquitos. Acho que o Silvio tem mais de 109 anos. Bem que ele podia presentear seus enriquecedores com aqueles terrenos. Ai que esse sangue me sujou a calça toda! Como é que vou dançar hoje à noite?

A gente faz a dança do sol todos os dias. Tudo o que aparece são tons de cinza muito claros, e eu lembro daquele livro manjado, o filme sobre o livro manjado: Ensaio sobre a cegueira. Santa Luzia, como precisamos dos olhos! Muito mais do que das referências.

Quero limpar, faxinar minhas letras, @Dindinha. Meus olhos não foram feitos para computador e celular. Maê! Tudo está tão desconexo, que às vezes eu acho que moro dentro do televisor. Ninguém mais chama televisão de televisor. Ou será que é tevê de plasma?

Será que consigo escrever três linhas sem referências populares? Sim, porque é possível escrever a palavra abacaxi. Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi… Abacaxi…

A palavra abacaxi é apenas a palavra abacaxi. E se refere à infrutescência. Óbvio que retirei essa palavra da Internet. Fui confirmar se é fruta realmente, já que tem os pedúnculos, os bulbos, os pseudofrutos. Mas quem consegue pensar em abacaxi e não lembrar do Chacrinha?

Me diz, @Dindinha, quem, em todo o país, consegue dissociar o abacaxi da Carmen Miranda e do Chacrinha, dos trópicos quentes, da Elke Maravilha dançando o Sanguinho do Joelho? Ai meu Deus, o bom dia não está fácil, mas como é maravilhoso o abacaxi do olhar silviosântico!

Álvaro Dias Cuba

Solo sagrado

Em meio a favelas e a mansão do dono da fábrica de chuveiros, dois oceanos cheios de lixo, senhores enrolados em cobertores mais cinzas e duros que o asfalto, teatros para peças infantis obrigatoriamente medíocres, tênis pendurados pelo cadarço no emaranhado elétrico, vilinhas fantasmas vipes, comedores de cus com bermuda de tactel pálidos de tara bosquímana, senhoras digníssimas comprando iguarias finas na padaria belga, comércio vestido de puro senso utilitário, escravos do celular, animais sufocados num insuportável conforto feito de plástico e algodão, negros racistas de cabelo black power, cobradores de ônibus que não respondem boa tarde, trabalhadores da administração eternamente sentados no computador fazendo cooper para perder a barriga, chusma de pernilongos, ataque de porvinhas, formigas atrás de comida, operários exaustos pensando em pizza calabresa, escritores frustrados sonhando como ser Dalton Trevisan, carros carros carros infinitos carros, torres torres torres incontáveis torres, diabéticos comendo torresmo com a mão mesmo, servidores públicos esgotados de estabilidade improdutiva, pombos podres mas vivos, ratos escondidos até 7 da noite, grávidas prevendo 15 fraldas descartáveis por dia, leitores que nunca passam da 15° página, crianças obesas em triciclos a 15 reais a hora, profanas construções de empresas religiosas feitas de isopor e jardins com coqueiros e coníferas, vidas-lokas e suas malukas na maldade, librianos perdidos de desamor em companhia de aquarianos se orientando para o desapego, grupo de gays acadêmicos competindo lembrar a letra de não existe amor em SP, pequenos abacates despencando das árvores antes da hora para rachar no chão, anarquistas opressores, roqueiros preconceituosos, artistas convencionais, estetas esculachados, caminhoneiros sem rumo, comunistas ricos, pessoas com roupas caras, tênis de marca fazendo o azougue pela faixa de ciclistas,

em meio a tudo isso, e muito muito muito mais, ao pé de uma árvore que há de ser engolida pela avalanche da cultura, famílias bolivianas aproveitam com bastante amor, elegância e refrigerantes um domingo sagrado nos gramados do parque Belém.

Álvaro Dias Cuba