Chá de lírio

No velho armário achado na esquina da quebrada, havia apenas um resto de sal, um pacote aberto de fubá, pequenas baratas e alguns dentes de alho com mofo peludo, enquanto irmã e sobrinha assistiam a programas infames de televisão sobre almofadas ridículas catadas no lixo de antigas patroas. Gorda e de bochechas escuras pelo consumo milenar de gordura ruim e de barrigudinha, ela rodava pela casa o ápice de um desespero de fome quando se lembrou da moça da ONG e sua oficina sobre chás feitos de plantas fáceis de encontrar por aí: flores sem vergonha, folhas poluídas de árvores de calçada e todo tipo de ervas danadinhas.

Saiu para a rua para saber o que fazer e, diante de um parque linear organizado por editais ornamentais, suspendeu a barra da saia branca, agachou-se, afundando os pés no brejo, a fim de arrancar as raízes de um dos incontáveis lírios invasores da Mata Atlântica. Abriu com violência e instinto um buraco com as unhas porque sabia não ser civilizada o suficiente para chamar unhas de garras e rosto de fera. Agarrou a planta pelo caule com tanta força de enforcadora, que as cócoras caíram pesado para trás. Colocou-se de pé toda suja de barro, o gengibre nas mãos abertas em fibras e cabelos selvagens.

Chegando em casa, cortou o gengibre em rodelas e cozinhou-as em água filtrada, conforme orientações da oficineira. No sofá, irmã e sobrinha demonstravam fascinação pela história de uma mulher que, após ter sobrevivido a seis tiros do marido, atravessou um vale em busca de socorro e contou com ajuda de estranhos para se salvar. Estavam tão hipnotizadas com a saga da heroína da vida real que perdoou o marido sem registrar queixa na polícia, que nem deram bola para o chá cheiroso por causa da falta de açúcar. Apenas a das bochechas escuras, sentada entre as duas e de frente para um jornalista vestido de terno gravata e mentiras, depois do primeiro gole de chá, desviou o olhar da televisão para a janela, por onde penetrava a fresta quente de um sol ancestral e verdadeiro que a revelou para sempre.

Álvaro Dias Cuba

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