Gerânios silvestres

Como quem tenta abrir buraco na água, luta que só luta acreditar em duas verdades absolutas. A primeira é que gente que não sente inveja, de duas uma, ou se acha a última bolacha do pacote ou compreende demais as coisas. A segunda verdade, é que a fofoca é um tipo adorável de amor brasileiro, pois quem fofoca considera muito mais o outro do que aquela indiferença doentia dos iluminados. E como lhe parece impossível compreender os paradoxos do comportamento humano, cuida de plantas de um jeito compulsivo, mas sempre matutando o cheiro de liquidificador queimado dos gerânios e o quanto as samambaias lembram os frizzados da nova namorada. Agora… Qual a origem e com que propósito cultivar gerânios, se aquela vizinhança demonstra invejinhas diárias, ao invés de simplesmente admirar a beleza do jardim? Que preguiça, viu!

Mas também, que porra de burguesão abestalhado me tornei, pensa ele, cultivando dia e noite avencas, tulipas e rendas portuguesas debaixo desse sol estourando mamona. Que vergonha! Que delícia! Que esteta tonto é esse, sempre buscando a justa medida em plena natureza exuberante. Amanhã mesmo vai cortar os cabelos a la Jimmy Hendrix no Retrô e comprar, no mínimo, oito batas com estampas Hare Krishna e Yemanjá. Por hora, é acabar com esses gerânios incoerentes e sair para comprar plantas adequadas.

De temaki na mão, a crítica internet-crônica em pensamento batendo forte contra o que ele chama de “uma multidão de Zumbis WhatsApp”, caminha decidido até o pet shop center. Enche o carrinho com sementes e mudas de quaresmeiras, bromélias, helicônias e orquídeas, devidamente embaladas em caixinhas transparentes modelo bolsa baú, o merecido conforto do consumidor de fofos cativeiros. Mas é apenas ao observar o mapa sobre a origem das plantas, localizado no corredor das ervas e pequenos arbustos, que Luiz leva as mãos até as bochechas, estapeando-se, arregala os olhos e grita. Ele acaba de descobrir que os gerânios silvestres cultivados durante anos nos jardins de sua bela casa, jaz picotados no saco de lixo da cozinha, também fazem parte da flora tropical.

Álvaro Dias Cuba

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