Experimento Mentes Virgens

Performance realizada no evento Noites Chocantes de Fim de Ano no Bar do Netão em 30/12/2017.

performers: Raffab Ajá e Lima
fotografia: Alexandre Reis
figurino: Christian Berthom

Solo sagrado

Em meio a favelas e a mansão do dono da fábrica de chuveiros, dois oceanos cheios de lixo, senhores enrolados em cobertores mais cinzas e duros que o asfalto, teatros para peças infantis obrigatoriamente medíocres, tênis pendurados pelo cadarço no emaranhado elétrico, vilinhas fantasmas vipes, comedores de cus com bermuda de tactel pálidos de tara bosquímana, senhoras digníssimas comprando iguarias finas na padaria belga, comércio vestido de puro senso utilitário, escravos do celular, animais sufocados num insuportável conforto feito de plástico e algodão, negros racistas de cabelo black power, cobradores de ônibus que não respondem boa tarde, trabalhadores da administração eternamente sentados no computador fazendo cooper para perder a barriga, chusma de pernilongos, ataque de porvinhas, formigas atrás de comida, operários exaustos pensando em pizza calabresa, escritores frustrados sonhando como ser Dalton Trevisan, carros carros carros infinitos carros, torres torres torres incontáveis torres, diabéticos comendo torresmo com a mão mesmo, servidores públicos esgotados de estabilidade improdutiva, pombos podres mas vivos, ratos escondidos até 7 da noite, grávidas prevendo 15 fraldas descartáveis por dia, leitores que nunca passam da 15° página, crianças obesas em triciclos a 15 reais a hora, profanas construções de empresas religiosas feitas de isopor e jardins com coqueiros e coníferas, vidas-lokas e suas malukas na maldade, librianos perdidos de desamor em companhia de aquarianos se orientando para o desapego, grupo de gays acadêmicos competindo lembrar a letra de não existe amor em SP, pequenos abacates despencando das árvores antes da hora para rachar no chão, anarquistas opressores, roqueiros preconceituosos, artistas convencionais, estetas esculachados, caminhoneiros sem rumo, comunistas ricos, pessoas com roupas caras, tênis de marca fazendo o azougue pela faixa de ciclistas,

em meio a tudo isso, e muito muito muito mais, ao pé de uma árvore que há de ser engolida pela avalanche da cultura, famílias bolivianas aproveitam com bastante amor, elegância e refrigerantes um domingo sagrado nos gramados do parque Belém.

Álvaro Dias Cuba